domingo, 21 de junho de 2026

Apresentação do livro Vida que Vivi de Eurico Silva lida pelo jornalista Carlos Gamito

Texto do jornalista Carlos Gamito na apresentação do livro Vida que Vivi do doutor Eurico Silva, que ocorreu na Figueira da Foz no dia 30 de maio no Museu Municipal Dr. Santos Rocha no transato dia 30 de maio:
Carlos Gamito com Eurico Silva
 

Considero a VIDA QUE VIVI, de Eurico Silva. um fascinante e arrebatador livro escrito com palavras cheias de palavras.

Cumprimento, cordialmente, V. Exas.

Ao Dr. Eurico Silva endereço um amistoso abraço de elevada admiração.

Antes de continuar, questiono-me: será que esta cadeira deve estar a ser ocupada por mim?! Mas por estar, confesso-me sensibilizado e não menos honrado com o gentil convite com que fui obsequiado pelo autor do livro Vida que Vivi, o Dr. Eurico Silva.

Num primeiro momento deixo uma sintética reflexão sobre as memórias do nosso passado.

Considero que o passado de todos nós guarda momentos e sentimentos representativos de uma substantiva parcela do capital humano, pelo que acariciar, estimar e preservar todas as imagens que ofereceram corpo e vida à estrada que calcorreámos, nem sempre com passos curtos, como deveriam ter sido, e que deveriam ter sido curtos porque a nossa “hospedagem” neste planeta Terra é muito, muito breve, só nos sobrando por isso, caminhar devagar e sem pressa, sendo essa a forma de ir adiando a finitude sombria que impiedosamente na espera.

Deixada a apressada reflexão, debruço-me agora sobre o livro aqui em apresentação: Vida que Vivi.

É um documento autobiográfico escrito e elaborado com mestria e denso saber. Nele estão palavras esculpidas com o cinzel da mestria, do saber e da sensibilidade do autor.

Em cada sílaba desprende-se uma suculenta fragrância que nos oferece uma doce sensação olfactiva envolta no aroma da saudade. Sendo a saudade um sentimento assente no pilar da melancolia, da angústia e da tristeza.
Paradoxalmente, é também um sentimento capaz de abrir recônditos alçapões silenciosos que nos sorriem, mas que acima de tudo desnudam a nossa própria capacidade de amar.

Exatamente assim, a saudade é um braço do amor, e só ama quem sabe sofrer, porque no seio do amor também habita o colérico e execrável desamor, e, esse sim, com desumana capacidade de provocar sofrimento.

Mas ainda sobre a nobreza do amor recordo que é um sentimento que está comodamente sepultado numa poltrona aveludada e debruada a ouro, mas, simultaneamente, incrustada em cardos selvagens, silvas agressivas e outros espinhos que nos rasgam a pele e ferem a alma.

Entendo que V. Exas. se questionem sobre o porquê desta minha referência ao amor.

Pois bem, evoquei o amor porque conheço a enorme responsabilidade que encerra a publicação de textos, seja em que formato for: livros, revistas, jornais ou qualquer outro veículo, e na referida responsabilidade de quem escreve para o público, devo sublinhar a exposição a que o autor se sujeita.

Fazer ecoar palavras escritas num universo para além do próprio autor é, em consciência, assumir o compromisso de saber gerir a crítica destrutiva e saber ser humilde ante a crítica construtiva, e essa delicada gerência revela uma sólida e imaculada essência onde a nobreza de carácter – esta de mãos dadas com o amor –, definem o quão é grande a capacidade do autor.

E a demonstração da sua grandeza, a grandeza do autor, fica patente na partilha da obra que, com esforço, empenho, carinho e substantivo amor, a produziu.

Sem que seja meu propósito entediar este brilhante evento, adianto que proferi estas magras, mas sentidas palavras, na sequência da leitura das páginas devidamente capituladas do livro Vida que Vivi.

A obra relata lugares que impõem silêncios absolutos, inteiramente enovelados na mais profunda contemplação, mas também mostra retratos escritos e emoldurados na recordação de pessoas que participaram em momentos vividos com o Dr. Eurico Silva.

Considero a Vida que Vivi um fascinante e arrebatador livro escrito com palavras cheias de palavras.

Palavras inteiras.

Palavras vestidas de silêncio.

Mas um silêncio com voz.

É a voz das palavras iluminadas pela luz cristalina que mostram a capacidade de formar sílabas e, com elas, apresentar distintas obras literárias.

São as palavras escritas pelo Dr. Eurico Silva.

São palavras que descrevem vivências do passado, mas que, por serem perenes, se perpetuarão na vida futura do Dr. Eurico Silva.

Antes de terminar, deixo um testemunho: retive capítulos do livro que, pela exímia construção frásica, me fascinaram e sensibilizaram, e de entre eles, destaco três. A saber: E Eu? (página 247), Os Lusíadas e o Disléxico (página 271), e Dia 8 de Dezembro (página 285).

São narrativas genuínas e cujos conteúdos ainda ecoam no meu já gasto coração, o que me impele a recomendar vivamente a sua leitura sem, naturalmente, querer mutilar a leitura de todas as outras crónicas capituladas na obra.

E agora, um detalhe informativo direcionado às pessoas que não navegam nas águas das artes gráficas: atendendo a que a edição de um livro obriga a várias fases para a sua publicação, verifica-se que, para além do encontro do autor consigo próprio, ou seja, o seu isolamento requerido pela concentração necessária para a elaboração de textos, é absolutamente imprescindível formar uma equipa de trabalho repartido respetivamente entre a revisão da redação, a paginação e, por fim, a impressão gráfica da obra. Ora, no âmbito dessas tarefas, felicito a Dra. Maria da Conceição d’Alte e a Dra. Sónia Varela, pela árdua tarefa que abraçaram e que visou a exaustiva revisão das peças das mais de três centenas de páginas que compõem o livro Vida que Vivi.

Também saliento, com muito agrado, a excelente modernidade utilizada pelo profissional José Carlos Cardoso, responsável pela criação do design gráfico que, com um elegante traço artístico, empresta uma notável cobertura estética à obra.

Agradeço a atenção de V. Exas. e findo a minha intervenção com uma sugestão que endereço ao Dr. Eurico Silva: Doutor, aceita que abramos um espaço interativo com o objetivo de eu e os presentes formularmos perguntas dirigidas ao Senhor?

Muito bem, agradeço-lhe a disponibilidade.

Terminado o diálogo, darei a palavra aos convidados que entendam intervir e, desse modo, julgo que será encerrada a sessão do lançamento da obra Vida que Vivi.

Sou de opinião que este espaço interativo servirá de charneira para franquear as portas onde espreitam ruas, ruelas, becos e azinhagas que irão oferecer céu aberto à vida do livro Vida que Vivi.

Chamo a mim a primeira pergunta que endereço ao Dr. Eurico Silva:

Dr. Eurico Silva, escavar as suas memórias e escrevê-las com o aparo da caneta mergulhado no tinteiro da saudade, terá sido com certeza deveras emotivo, pelo que lhe pergunto se nalgum momento foi vencido pela emoção e sentiu o sabor salgado das lágrimas a beijarem-lhe a boca?

Dr. Eurico Silva, uma segunda questão: se o tempo fosse mecânico e por isso manipulável, pergunto-lhe: se hoje encontrasse o Eurico Silva com 13/14 anos, que conselhos lhe daria?

Dr. Eurico Silva, uma última pergunta que é um perfeito cliché: no plano literário, que projetos tem para o futuro?

Finalmente terminei, agora apelo à assistência que coloque as suas questões ao autor da obra Vida que Vivi.

Reitero o meu exaltado agradecimento e vamos ficar a aguardar um novo livro da saga literária do Dr. Eurico Silva.”

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